Richard Gere e Julia Roberts estão deitados na cama, acredito depois de finalmente aceitarem que estão apaixonados um pelo outro e Gere pergunta à Roberts sobre como ela foi parar na vida que ela leva... Conversa vai, conversa vem, numa tentativa de mostrar à Vivian todo seu potencial, ele fala algo do gênero como que ela poderia ser o que ela quisesse na vida, ao que ela responde: "The bad stuff is easier to believe. You ever notice that?"
E aí estou eu.
É triste como na minha vida, é sempre muito mais fácil acreditar no negativo do que no positivo. Muito mais fácil acreditar que a crítica foi genuína e que o elogio foi só uma tentativa de aplacar uma possível tristeza. Mais natural acreditar que eu não sou capaz ou boa o suficiente do que aquele belo clichê "você pode ser tudo o que quiser".
Anos de terapia ajudaram, mas como fica óbvio neste texto, (ainda) não resolveram o problema. Tento parar para achar o motivo e tirando as questões de "daddy issues" presentes em tantas pessoas, outras breve passagens aparecem em minha mente: bullying na escola; uma certa vez enquanto criança que subi no palco para contar uma piada em um hotel fazenda, morrendo de vergonha e quando terminei, todos olhavam para a minha cara e ninguém riu; ter sido comparada pelo meu namorado da época a uma menina com uma amiga minha com quem ele tinha ficado e ouvir dele que eu deveria ser um pouco mais como ela... tantas coisinhas pequenas, mas que ficam na cabeça e acho que acabam por achar um modo de se embrenhar na minha estrutura íntima.
Por que é tão fácil se questionar assim? Como faz para ser uma pessoa cheia de si? Será que é por isso que eu me incomodo tanto com pessoas arrogantes e egocêntricas? Porque eu invejo a autoestima delas? Devo admitir que às vezes preferiria ser prepotente e pedante do que constantemente auto questionante. Essa segurança em si deve ser libertadora. Mas ao mesmo tempo, como alguém pode se julgar melhor do que outro? Mas de novo, se um não pode se julgar melhor do que outro, por que eu posso me julgar menos do que outro? Ah, as indagações do ser que não fazem lógica nenhuma...
Ultimamente é moda listas de comportamentos dos quais se deve abrir mão para ter uma vida melhor. Na lista de ontem, um dos tópicos dizia que devemos parar de nos comparar com todos a nossa volta, incluindo pessoas que seguimos no Instagram. Vamos combinar que o Instagram é o menor dos nossos problemas? Muito mais fácil deixar de se comparar com Puglieses da vida do que com as pessoas que estão próxima ao nosso redor.
Como parar de nos comparar com o próximo se foi isso que aprendemos durante toda a nossa vida? Pelo menos na maior parte do tempo... Temos que tirar as melhores notas, temos que passar no vestibular para as melhores faculdades, ter o melhor estágio, o melhor emprego, o melhor salário, viajar para os lugares mais interessantes, ser o mais politizado, o mais cult, o mais zen, o mais "iluminado"... A vida cotidiana é uma chuva de "seja o mais" e de repente esperam que consigamos desligar o interruptor e parar de nos comparar ao coleguinha ali do lado e ser mais você mesmo?
Ser você mesmo hoje em dia é obra de arte rara. Saber quem você realmente é, é tarefa hercúlea! Afinal de contas, o que você faz hoje é o que você realmente ama ou é o que escolheu fazer quando tinha 17 anos e mal sabia juntar lé com cré? Vamos mais a fundo e parar para refletir se mesmo hoje, com 30 e poucos, você já sabe juntar lé com cré ou ainda é levado pela corrente que vai passando?
Meu lé e cré ainda estão bastante separados um do outro. Aos 32 anos quando penso no que eu quero ser quando crescer, tenho um branco. Um branco logo seguido de uma auto cobrança que me alerta que o "quando crescer" já chegou e que a sociedade espera que eu já tenha todo um mapeamento da minha vida. Que não só a sociedade, mas que eu mesma espero isso de mim. E faz como quando percebemos que ainda não temos esse mapa desenhado? Que ainda não tenho o mapa desenhado? Faz como para desligar a crítica e não se achar uma criança perdida? Para não se comparar com aquele amigo ou amiga que já está lá na frente da carreira, dizendo para tudo e todos que nunca foi tão feliz na vida?
É, meus amores... Faz como para traduzir aquele sentimento quietinho e encolhido ali dentro em palavras e ações e descobrir o real motivo de ser eu e estar aqui?